Atualíssimo Bilac!
Ousas afirmar que o jornalismo é digno de esquecimento rápido e que o poeta fica datado? Sem essa!!! Autor de crônicas indignadas, bem humoradas, exultantes, imprevisíveis e cheias de vibração o homem arrebenta (ou). Dá só uma olhada, vale muitíssimo a pena. Todos os superlativos seriam, ainda, poucos para descrever sua obra.
....Merecem alguma tenção as declarações que o nosso Prefeito fez a um jornalista: "Pedi demissão porque o cargo de Prefeito não pode deixar de ser político e, sem saber porque, tenho criado inimigos em todos os partidos e em todos os grupos. Mas insistiram tanto, que me resignei a levar a cruz ao Calvário". Essa declaração de que não há meio de fazer administração municipal sem política é preciosa: ela só, mais do que tudo quanto se pudesse escrever em quinhentos volumes, define a situação curiosíssima em que nos vemos todos nesta cidade gloriosa. Para calçar a cidade, para varrer, para fazer passar um jorro de água purificadora pelos seus esgotos, para não consentir que suas ruas sejam vastas estrumeiras, é necessário, é indispensável que haja política.
É o que se pode depreender das declarações de nosso Prefeito. Pois sim! A mim não me convencem essas altas razões. Porque a verdade é que se houvesse limpeza não haveria política...
Já disse que a política é um cogumelo podre, uma esponja que absorve tudo, um pântano que tudo infecciona. Mas a melhor comparação é esta: a política é um tiflomolgo. O nome é feio: mas o animal que dá por ele ainda deve ser mais feio. O tiflomolgo, até agora desconhecido, acaba, segundo uma Revista Científica do Jornal do Comércio de ontem, de ser descoberto num poço artesiano de S. Marcos, no Texas.
É uma "espécie de salamandra, completamente cega, de cor branca, viscosa e mole, amando o lodo e a treva, dotada de pernas longas e delgadas, que não são próprias para locomoção, mas servem para reconhecer o terreno escuro". É possível que a descoberta deste singular animalejo nos poços do Texas seja um novo canard dos inventivos yankees, mas que o tiflomolgo exista no Rio de Janeiro, isso não pode padecer dúvida: o tiflomolgo é a política, e se este Prefeito (como todos os que já tivemos) não limpa cidade, é porque, amando apaixonadamente o feio bicharoco, não quer privá-lo da lama em que tão regaladamente se agitam as suas longas e delgadas pernas gosmentas.
Dizer que é impossivel ser Prefeito sem fazer política, é uma verdade: mas também é uma verdade, ainda mais absoluta, que não é possível fazer política sem ser mau prefeito. Porque para manter a política é preciso manter a porcaria, coisa que é muito boa para o tiflomolgo, mas que só pode ser muito má para mim e para meus comunícipes, que não temos como aquela admirável criatura, o amor extraordinário pelo lodo.
[Diário do Rio, 17 de julho de 1898].


